sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

An Special Day



Dando um tempo no Blog tendo em vista que considero iniciada uma nova fase com outras mediações...

Contudo, ele permanecerá aqui como registro histórico dos últimos 3 anos.

Futuramente colocarei no ar outra vez os post de 2009 os quais eu havia retirado. Mas agora não tenho tempo.

Saudações entusiasmadas com tudo

Alexandre Nunes

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Feliz 28: 3 citações + 15 músicas pra sorrir pra vida



“Era nove de fevereiro. Ao sair assustara-se ao encontrar noite feita.”Clarice Lispector: Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres

"aos 28 anos ela enlouqueceu completamente e de súbito abriu a janela do quarto e pôs-se a dançar nua sobre o telhado gritando muito alto que precisava de espaço" – Caio Fernando Abreu: Aconteceu na praça XV

"Não é mais nenhuma criança. Completou 28 anos semana passada, caminha meio tonta para o banheiro, entre mil peças de roupas espalhadas pelo chão., 28 anos e está sem faxineira” – Sônia Coutinho: doce e cinzenta Copacabana.

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15 Músicas para sorrir para a vida:

Acho fim de carreira, o cúmulo da falta de criatividade colocar letra de música em blog. A não ser que seja uma puta poesia como “esquadros” da Adriana Calcanhotto, minha música favorita. Epígrafe de nossos tempos.

Mas que se há de fazer se vem a vontade de postar aquelas músicas que mexem fundo. Não necessariamente são as suas músicas preferidas, mas são aquelas que você inexplicavelmente não consegue ouvir uma única vez. Que fazem a alma sorrir dando vontade de bater na porta do vizinho e desejar bom dia, de beijar o português da padaria.

Então aí vai a lista de algumas que me vem à cabeça no momento (em ordem alfabética):

“Aconteceu” Adriana Calcanhotto
“Avesso” Ceumar
“Caminhos do coração” Gonzaguinha
“Cantar” Teresa Cristina
“Coração de estudante” Milton Nascimento
“Dueto” Chico Buarque e Nara Leão
“Esquadros” - Adriana Calcanhotto
“Fim de Tarde” Bruna Caram
"Samba da Benção" Vinicius de Moraes
“Mapa-Múndi” Thiago Pethit
“O filho que eu quero ter” Toquinho e Vinicius
“Ouro de tolo” Raul Seixas
“Quando eu estiver cantando” Cazuza
“Sampa” Caetano Veloso
“Não identificado” Gal Costa

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

FIGHT: Paulo José x Ana Cristina Cesar

Paulo José relembra: “Inimigos quase íntimos. Começa com esse encontro que eu tive com ela em 82. Ela trabalhava no departamento de análise de textos [da TV Globo] e eu fazia um programa chamado ‘caso verdade’. E ela odiava os textos. Achava vulgares, simplórios. [Ela fazia] A análise de textos de um programa de cinco horas da tarde que eu fazia. Eram histórias de pessoas infelizes que no final ficavam felizes. E ela tinha que fazer um relatório dando um parecer. E sempre eram negativos os pareceres. [...] Mas eu encontrava com ela só para brigar: 'você não entende nada de televisão. O público alvo de televisão de cinco horas da tarde é dona de casa e empregada doméstica. A televisão que tá ligada é a da cozinha. Então programa tem que ser muito simples' E ela não aceitava isso. Ela dizia: ‘Não . Eu escrevo [no relatório] o que eu penso’. Eu fui saber que ela era poeta só depois no final do ano. [...] Ela lançou o livro 'Aos teus pés'. Aí que eu vejo na noite de autógrafos: ‘meu deus essa mulher... aquela estudante pedante. Aquela filha da PUC’. Era poeta né. Grande poeta. Aí eu fiquei encantado com ela. Mas aí eu a perdi de vista. Já tinha acabado o ano. Eu saí de férias. Viajei. E quando eu volto fiquei sabendo da morte dela, do suicídio”

[Transcrição minha da entrevista disponível no link]

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A Teoria Queer e a Sociologia: o desafio de uma analítica da normalização


Por: Richard Miskolci

Resumo
Originada a partir dos Estudos Culturais norte-americanos, a Teoria Queer ganhou notoriedade como contraponto crítico aos estudos sociológicos sobre minorias sexuais e à política identitária dos movimentos sociais. Baseada em uma aplicação criativa da filosofia pós-estruturalista para a compreensão da forma como a sexualidade estrutura a ordem social contemporânea, há mais de uma década debatem-se suas afinidades e tensões com relação às ciências sociais e, em particular, com a Sociologia. Este artigo se insere no debate, analisa as similaridades e distinções entre as duas e, por fim, expõe um panorama do diálogo presente que aponta para a convergência possível no projeto queer de criar uma analítica da normalização.

Palavras-chave: Teoria Queer. Sociologia. Sexualidade. Diferenças. Michel Foucault. Analítica da normalização.

Texto completo clique aqui
Lattes do autor cliqe aqui

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Apuds autorizados


"Quando finalmente me levantei... e aprendi a caminhar novamente, apanhei um espelho e me dirigi a um outro maior, fixo, para me olhar, sozinha. Eu não queria que ninguém soubesse como me sentia ao me ver pela primeira vez. Mas não houve barulho nem choro; não gritei de raiva quando me vi. Simplesmente fiquei estarrecida. Aquela pessoa no espelho não poderia ser eu. Eu me sentia por dentro como uma pessoa comum, feliz, saudável - não como aquela que eu via! Ainda assim, quando virei o rosto para o espelho, lá estavam meus próprios olhos olhando para trás, ardentes de vergonha... quando não chorei nem tampouco fiz qualquer barulho, tornou-se impossível para mim falar sobre isto com alguém, e a confusão e o pânico provocados por minha descoberta foram trancados dentro de mim para encará-la sozinha, durante muito tempo ainda."

“Aos poucos esqueci o que havia visto no espelho. Aquilo não podia penetrar no interior de minha mente e converter-me em parte integral de mim. Sentia-me como se não houvesse nada comigo; era apenas um disfarce. Mas não era o tipo de disfarce que é voluntariamente colocado pela pessoa que a usa com o objetivo de confundir os outros sobre sua identidade. Meu disfarce foi posto em mim sem o meu consentimento ou conhecimento, como ocorre nos contos de fadas e foi a mim mesma que ele confundiu quanto a minha própria identidade. Eu me olhava no espelho e era tomada de horror porque não me reconhecia. No lugar em que me encontrava, com aquela exaltação romântica persistente em mim, como se eu fosse uma pessoa favorecida e afortunada para quem tudo era possível, eu via uma figura estranha, pequena, lastimável, horrenda e um rosto que se tornava, quando eu o olhava fixamente, doloroso e vermelho de vergonha. Era só um disfarce mas estava em mim para o resto da vida. Estava lá, estava lá, era real. Cada um desses encontros era como uma espécie de explosão na cabeça. Eles deixavam-me sempre entorpecida, muda e insensível até que, aos poucos, obstinadamente, a forte ilusão de bem-estar e beleza pessoal voltava a me invadir: eu esquecia a irrelevante realidade e ficava despreparada e vulnerável novamente.”



[GOFFMAN,E. Estigma: notas sobre a manipulação da Identidade Deteriorada. RJ: Guanabara, 1988. p. 17-18]

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

-.-'

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O Homem e a Mancha

[1ª edição do "Teatro Completo" do Caio Fernando Abreu]


Finalmente assisti ontem o vídeo da leitura dramática que o Caio faz da sua última peça "O homem e a mancha".

Que "time" tinha o Caio. Você fica impressionado. esta impressão é a de que ele pode qualquer coisa a voz. Que ironia implícita! Ligada numa frequência de sagacidade e sarcasmo.

Drops do texto:

"Era uma vez um ator. Muito palco, muito ensaio, muita luz, muita coxia, muito bastidor, muita platéia — graças a Deus! —, muita emoção, muito sonho, muita ilusão. Muito... Muito “Era uma vez”.

“Em frente bravo Rocinante, que a vida é curta para tanta estrada”

“E quando eu estiver cansado de pensar no que vivi, ainda me restarão os livros que foram sempre o que mais amei desde menino e que guardam outras estórias dentro deles. Todas as histórias do mundo. Que maravilha”

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Almost Ruby Tuesday

[tradução minha]

“Bobby,” eu disse “vou ser bem direta. Você se importa?”
“Não, não me importo.”
Ele passou o baseado de volta pra mim.
“Responda a verdade, agora. O que você acha de mim?”
“Hãn?”
“Não me faça repetir a pergunta. É muito constrangedor”
“O que eu acho de você?”
“Você está, tipo, interessado em mim?”
“Hum, claro. Claro que sim.”
Devolvi o baseado e ele deu uma longa tragada
“Bob, você já transou com mulher?”
“Bem, tipo, não. Na verdade não.”
“Já pensou alguma vez que poderia gostar?”
Ele não respondeu. Nem se moveu. No rádio os Stones cantavam “Ruby tuesday”. Então eu disse “Vem cá. Apaga a marijuana e só dança comigo um pouco, ok?”

[Do livro: "A home at the end of the world" de Michael Cunningham – edição inglesa da Penguin Press p. 167]

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

All about introducing


Conversa de MSN:
Mirleide: ei Alexandre comprei hoje aquele filme “A malvada”[All about Eve]
Eu: muito bem. Ele é maravilhoso. O meu ainda tá com o João.
Mirleide: Vi nas americanas e lembrei do que tu falou na Cultura.
Eu: Sim, sim. Adoro esse filme. Tem a foto duma cena no Orkut do João que ele me marcou no rosto da Bette Davis.
Mirleide: rsrsrsrs
Eu: Um filme para se ver milhões de vezes.

E é claro que neste momento eu me senti a própria Clare personagem do livro/filme “A home at the end of the world” do Michael Cunningham. O trecho do livro em questão:

[A tradução é minha]

“[...]Clare e eu fomos ao cinema. Ela me levou para assistir “ a malvada” [All about Eve]. Chocada por eu nunca ter ouvido falar neste filme. Na verdade se trata de uma dessas comédias em preto e branco que passam em cinemas onde os ratos correm pelos nossos pés.” [p. 147 – da edição inglesa da Penguin Books]

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Virginia vs. Katherine

Primeira leitura do Ano:

"As mulheres de Virginia Woolf" de Vanessa Curtis [Amiga do Bivar]

Um dos destaques do livro é descrição da amizade conflituosa, mútou-invejosa e competitiva entre Mrs. Woolf e a despirocada [e brilhante] Katherine Mansfield. Uma das [muitíssimas]revelações é que Virginia odiou aquele que considero ser a obra prima da escritora neozelandesa:
BLISS [no Brasil: Felicidade] Clique aqui para ler o conto.


TRECHO:
É improvável[...] que a reação negativa de Woolf à publicação da história abertamente bissexual de Mainsfield "Felicidade", foi devido a qualquer aversão pudica ao conteúdo. A história descreve o desabrochamento dos sentimentos de uma mulher casada por outra mulher - que acontece ser a amante de seu marido. é mais provável que Virginia e as suas sensibilidades literárias tenham ficado desapontadas pelo estilo duro e falastão da narrativa de Mansfield [...] Entretanto sua legendária predição da extinção da carreira de Mansfield - ela registrou simplesmente em seu diário "ela acabou!" - se provou equivocada, porque, depois de "felicidade", Katherine partiu para um sucesso atrás do outro, publicou "A festa ao ar livre e outras histórias" e "Felicidade e outros contos", pelos quais recebeu críticas delirantes. Woolf declarou que não estava com inveja, mas a própria frequência com que mencionava o fato sugere o contrário
(p.140)

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

2 anos de Cariri - Play List


No final deste mês fazem dois anos que me mandei pro Cariri.
Pra começar as comemorações, desenterro a Play-list dos ábuns que fui ouvindo naquele irremediável dia:



- "Em outro lugar" - EP Thiago Pethit
- "I trust my dealer" - Montage
- "Donkey" - Cansei de ser sexy
- "Querem acabar comigo roberto" - Karine Alexandrino
- " Discovery" - Daft Punk
- "Horses" - Patti Smith
- Coletânia da Nina Simone

domingo, 2 de janeiro de 2011

Meu twitter tá frescando

Não consigo entrar no meu twitter desde 2010!

E sem saco pra postar aqui

uó.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

RETROSPECTIVA 2010

MELHOR CINEMA:
*Lançado em 2010: ia colocar NENHUM, mas ontem assisti o novo Woody Allen “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos”
*Cinema Clássico: “Quem tem medo de Virginia Woolf?”[Cine-Clube BNB]


MELHOR MÚSICA:
*Música lançada em 2010: “Mapa-Múndi” Thiago Pethit
*Videoclipe lançado 2010: “Mapa-Múndi” Thiago Pethit
*Trilha sonora na dor de cotovelo 2010: Todos da Ceumar em especial “Avesso”
*Álbum descoberto: Teresa Cristina canta Paulinho da Viola
*Descoberta da Música: Teresa Cristina
*Emoção ouvida: “Cantar” Teresa Cristina
*Descoberta Clássica da Música: The Smiths
*Bluckbuster: Lady Gaga

MELHOR LITERATURA:
*Livro: “Teleny” atribuído a Oscar Wilde
*Livro de ficção: “Teleny” atribuído a Oscar Wilde
*Livro de Não-ficção: “Antes que anoiteça” Autobiografia do Reinaldo Arenas
*Livro de poesia: “Folhas das folhas da Relva” Walt Whitman
*Livro de ensaios: “Homens em tempos sombrios” Hannah Arendt
*Descoberta literária nacional: Maria Adelaide Amaral
*Descoberta literária internacional: Will Self
*Livro relido: “Uma casa no fim do mundo” Michael Cunningham
*Livro infanto-juvenil: “Um conto de Natal” – Charles Dickens
*Emoção lida:Descrição da infância e da pobreza da mulher em "Agreste Malva-rosa" de Newton Moreno.

MELHOR TEATRO:
*Espetáculo visto em 2010: “Aqueles dois” [Cia Luna Lunera - Belo Horizonte]
*Espetáculo lançado em 2010: "Engenharia Erótica" [Fortaleza – grupo Parque]
*Atuação masculina: Silvero Pereira/Gisely Almodóvar em “Engenharia Erótica” [Fortaleza – grupo Parque]
*Atuação feminina: Joaquina Carlos/ Alzira em “Avental todo sujo de ovo” [Crato – Grupo Ninho]
*Texto de teatro lido: “Esperando Godot” de Samuel Beckett [2º lugar “de braços abertos” Maria Adelaide Amaral]
*Infantil: “Terreiro de Histórias” [Crato - Armadilhas Cênicas]
*Emoção vista: Reencontro Antero e Moacyr/Indiene em "Avental todo sujo de ovo" [grupo Ninho- Crato]
*Descoberta: “de braços abertos” de Maria Adelaide Amaral [2º lugar: "Agreste Malva-rosa" de Neton Moreno]

TV:
*Seriado: 3o Rock
*Seriado re-assisitido: Anos incríveis [via youtube]
*O resto: Nenhum [aboli TV]

VARIEDADES:
*Melhor Show: Zeca Baleiro em Fortaleza
*Melhor chaveco recebido: No show do Arnaldo Antunes no Crato [e depois]
*Maior porre: ... não me lembro.
*Melhores descobertas de amigos 2010[em ordem alfabética]: Alana, André, Arismeire, Cleide, Enza, Joaquina, Joelmir, Gizely, Socorro, Suellen.
*Melhor Fast food: Sanduiche vegerariano da Subway- Shopping Benfica [sem molho e com azeite]
*Melhor re-encontro: Almoço com Leila no restaurante indiano do Bairro de Fátima
*Melhores ditos populares: “Quem tem cu tem medo”/ “Bezerro bom não berra” [André]
*Melhor turismo ecológico: As praias de rio de Tocantins
*Maior cafajestagem sofrida: réveillon 2009-2010 + desdobramentos
*Melhor interlocução artística/estética: Paola Benevides e Ailson Lemos / Joaquina Carlos
*Melhor parceira de dança: Gisely nos shows do Nightlife/ Cariri
*Maior perda: Ruy Krebs amigo virtual e amigo na infância do Caio Fernando Abreu
*Melhor livraria: Cultura - Fortaleza
*Maior mico: pânico na sala de endoscopia me agosto

PROFISSIONAL:
*Melhor Evento científico: V congresso da ABEH
*Melhor Conquista: Ser professor efetivo de jornalismo na UFC [além dos dois outros concursos]
*Maior surpresa: Eleição para o Conselho consultivo da ABEH 2011- 2012 [2º lugar: conselho fiscal do Comunicação e Cultura]
*Melhor publicação: No livro “Comunicação para a cidadania” da INTERCOM
*Melhor Pesquisa realizada: "Cariri queer: um esboço da perfomatividade travesti nas terras de Padre Cícero"
*Melhor Grupo de estudos: GESS – Grupo de estudos de Sexualidade e Subversão - URCA

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Links by Nightfall



Já rasguei demasiados elogios pro Michael Cunningham aqui neste ano. Clique aqui ou aqui

E o criador da família Stassos está de volta em grande estilo nos presenteando com mais uma narrativa bem elogiada na resenha do New York Times clique aqui

Pra conferir, o site da Amazon disponibiliza as 8! primeiras páginas do romance.
Agora é esperar a companhia das letras comprar os direitos, rezar para a Beth Vieira ou a Ana Olga Barros Barreto [prefiro a segunda]ser contratada para traduzir. O que deve demorar [dedos cruzados] um ano.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Ante o trânsito de Nova Déli

(um plágio grosseiro e descarado)

[...] E porque rapazes e moças como ele e ela aos sábados à tarde raramente ou nunca se enfiam por teatros, preferiram subir ou descer a rua São Pedro olhando as coisas, não as pessoas, os dois se encaminhando para a esquina do CCBNB. Então pararam e olharam para frente, uma multidão de romeiros, como se o mundo fosse acabar, oh as ruas tão tristes de Juazeiro do Norte.
E então como se padre Cícero rompesse de repente entre as gentes e como seu chapéu anunciasse aos homens daquela rua e daquele sábado à tarde naquela cidade a irreversibilidade e a fatalidade da redondeza das esquinas do mundo – ele olhou para ela e ela olhou para ele
Ele sorriu para ela, sem ter o que dizer. Ela também sorriu para ele. Mas disse, a moça disse:
___ Parece Nova Déli, não?
___ O quê? – ele perguntou sem entender.
Ela apontou com os braços se abrindo em semi-círculo:
___O trânsito. O trânsito parece Nova Déli.
Surpreso e meio bobo, ele perguntou:
___ E você já esteve em Nova Deli?
___ Nunca – ela sorriu outra vez. – Mas não é preciso. Deve ser bem assim, você não acha?
___ O quê? – ele, que era meio lento, tornou a perguntar.
___ O trânsito – ela suspirou. – Parece o trânsito de Nova Déli.
Ele sorriu também outra vez. E concordou:
___ Sim, é verdade. Parece o trânsito de Nova Déli [...]

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Adeus [?] a Claudia Wonder


Recebi, em plena Assembléia Geral da ABEH, a notícia do falecimento de Cláudia Wonder.
Fico me perguntando: "Até quando meu [d]eus, até quando?"

Reproduzo abaixo um texto do Caio sobre esta figura que, confesso, ainda estou por conhecer:

MEU AMIGO CLAUDIA
Por: Caio Fernando Abreu

Maravilha, prodígio, espanto:
No palco e na vida, meu amigo Cláudia é bem assim:
Meu amigo Cláudia é uma das pessoas mais dignas que conheço. E aqui preciso deter-me um pouco para explicar o que significa, para mim, “digno” ou “dignidade”. Nem é tão complicado: dignidade acontece quando se é inteiro. Mas o que quer dizer ser “inteiro”? Talvez, quando se faz exatamente o que se quer fazer, do jeito que se quer fazer, da melhor maneira possível. A opinião alheia, então, torna-se detalhe desimportante. O que pode resultar – e geralmente resulta mesmo – numa enorme solidão. Dignidade é quando a solidão de ter escolhido ser, tão exatamente quanto possível, aquilo que se é dói muito menos do que ter escolhido a falsa não-solidão de ser o que não se é, apenas para não sofrer a rejeição tristíssima dos outros.

Bem, assim é meu amigo Cláudia. Eu não o/a conhecia pessoalmente. Ou melhor: conhecia do palco, onde Cláudia enlouquece cantando, falando e mostrando-se de uma maneira tão atrevidamente escancarada que fica linda, lindo. Só conversamos face a face, pela primeira vez, há três semanas. Parece não ter nada que ver, mas tem tudo: eu adoro Marina Lima. Há três anos, no Rio, conheci Sergio Luz, que atualmente dirige Marina. Éramos amigos de (Ah! Os bordados da vida...) Ana Cristina César, e foi através dela que cruzamos caminhos. Mas isso é outra história. Ou nem tanto. Há três semanas, Sergio me convidou para jantar com ele, Marina, Antonio Cicero e outras pessoas. Lógico que fui. E lá estava também Cláudia, no meio de uma mesa enorme. Não havia lugar para todo mundo. Sentamos numa mesa próxima. Pouco depois, Cláudia veio sentar-se conosco, porque havia um senhor na outra mesa – um senhor poderoso – que não parava de agredir Cláudia. Começamos a conversar. Acabamos no Madame Satã, onde raramente ou nunca, felizmente, existem senhores como aquele, agredindo pessoas como Cláudia. Por não existirem interferências assim no mundo particular do Satã, foi que Cláudia e eu, naquela noite, nos tornamos amigos.

Para aquele senhor, e para a maioria de todos os outros senhores do mundo, a presença de Cláudia deve representar a suprema transgressão, a mais perigosa das ameaças. Tanto que andam matando pessoas como Cláudia, na noite negra e luminosa de Sampa. É que meu amigo Cláudia incorporou, no cotidiano, a mais desafiadora das ambigüidades: ela (ou ele?) movimenta-se o tempo todo naquela fronteira sutilíssima entre o “macho” e a “fêmea”. Isso em uma sociedade em que principalmente o genital é que determina o papel que você vai assumir. Porque se você é homem, você tem de fazer isso e isso e isso – não aquilo. E se você é mulher, deve fazer aquilo e aquilo e aquilo – não isso.

Movendo-se entre isso e aquilo, meu amigo Cláudia conquista o direito interno/subjetivo de fazer isso e também aquilo. Mas perde o direito externo/objetivo de fazer nem isso nem aquilo. Tomamos vodca juntos na madrugada falando de solidão, essa grande amiga em comum de todos nós. Trocamos telefones, nos encontramos outra vez. Gosto tanto de seus olhos muito abertos, atentos a tudo, contemplando diretamente o mais de dentro de cada um.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Pequenas Epifanias

Quando a gente menos espera ela acontece. Como diz o Caio "cravada no cotidiano"...
Vai o texto na íntegra. Vale a pena:


Dois ou três almoços, uns silêncios.
Fragmentos disso que chamamos de “minha vida”.

Caio Fernando Abreu

Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector “Tentação” na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso – aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

(Publicado no jornal “O Estado de S. Paulo”, 22/04/1986)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Amigos no meidomundo lembrando de mim


[Presente trazido pelo meu querido Sérgio de Sousa de Cuzco no Peru].

Ontem recebi uma ligação inusitada: Sérgio estava de passagem em Juazeiro. Corri pra passar algumas horas com este grande amigo. Muito, muito feliz. Bliss mesmo.
Aí quando abro o email hoje. Agora, agora recebo duas mensagens de lembraças de amigos que me dizem

*Alexandre Barbalho[orientador do mestrado]:

"alexandre, agora nunes, lembrei de vc esses dias! tava em sampa e comprei o livro de cartas da ana c.! vc tem? ou já leu? Muito bom p ver as angústias q deram carne e poesia p a poeta!"


*E logo abaixo uma do Bruno [companheiro de mestrado fazendo doc. no Rio]
"Alexandre. Assisti no Espaço Cultural Solar em Botafogo um espetáculo Maravilhoso Chamado “Dragões” baseado nos textos do Caio F. Lembrei muito de voc|ê. E evidentemente, fiquei pêssego em calda co mo texto e a performance dos atores"

*Sendo que este ano já havia recebido do Ailson:
"Claro que me lembrei muito de você e do Caio em São Paulo. Uma loucura. Mas com uma semana deu no saco. Prefiro Fortaleza. Mais real. Quando voltei batia a poeira da sandália carlotajoaquinamente.”


*E do Próprio Sérgio:
No primeiro semestre, Sérgio em Plena rua Augusta me liga “Alexandre é a tua cara queria que tu estivesse aqui!!!!!”

Depois na Cultura ainda em Sampa “Comprei Traispooting [o livro] e só lembrei de ti

Feliz e com muitas saudades. porra.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Mais, por favor.

“Please, sir. I want some more.” [Versão de Roman Polanski]

“Please, sir. I want some more.” [versão 1969]

“Please, sir. I want some more.” [gravura original do Livro de Dickens]

A literatura inglesa sempre esteve presente na minha vida. Não é a toa que dentre os 4 melhores livros que li este ano 3 vêm de lá (Wilde, Beckett e Woolf). Colonizados ou não, este é um fato. Afinal a Inglaterra, antes da segunda guerra mundial, era o centro do mundo e suas narrativas exerciam funções similares, embora não análogas, que o cinemão norte-americano tem hoje.
Não é a toa também que estas estórias e histórias da ilha povoem nosso periférico imaginário. Aquele povo produziu muitos dos mais exímios escritores e mais do que isso deu visibilidade a eles [muitas vezes impondo-os goela abaixo como a “verdadeira” narração do mundo].
Mas, como dizem os dialéticos, em toda hegemonia há resistência e a tradição inglesa nos forneceu diversos autores que nos mostraram retratos contraditórios, díspares da Grã-Bretanha. Destaco dois:
1. Jonathan Swith: quando eu era pequeno meu primeiro livro infantil foi deste moço: “aventuras de Gulliver” claro, na versão para crianças não havia as alegorias, críticas e sátiras e os povos gigantes e anões eram o que eram... gigantes e anões sem metáforas. [Esta obra já compõe minha lista de Leituras 2010. O Original, é claro, com suas quase 500 páginas.]
2. O outro é Charles Dickens. Sempre intui uma energia magnética vinda do nome dele. O extraordinário jornalista foi responsável por fixar o chamado “espírito do Natal” que sempre lembra um pouco da infância embora não tenhamos boneco de neve, nem [graças a deus] comamos nozes. De seus textos fiquei pasmo ao ler em “retratos londrinos” duas Crônicas publicadas em 1835 sobre o anoitecer e o amanhecer nas ruas de Londres. Eis uma descrição densa. Mais de 100 anos antes de Cliffort Geertz existir. Dickens é também considerado o grande crítico da revolução industrial com suas obras “Hard times”; “Grandes esperanças” e “Oliver Twist” que estou indo assistir agora. O de Roman Polanski.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Top 10 livros 2010

Os 10 melhores livros que li [até agora] em 2010:


1º “Teleny” – Oscar Wilde (Romance irlandês/inglês)
2º “Antes que anoiteça” – Reinaldo Arenas (autobiografia cubana)
3º “Esperando Godot” – Samuel Beckett (Teatro irlandês/inglês)
4º “Orlando” – Virginia Woolf (Romance inglês)
5º “De braços Abertos (em Melhor teatro)” – Maria Adelaide Amaral (Teatro brasileiro)
6º “A maçã no escuro” – Clarice Lispector (Romance Brasileiro)
7º “Luisa (quase uma história de Amor)” – Maria Adelaide Amaral (Romance Brasileiro)
8º “Aos meus amigos” – Maria Adelaide Amaral (Romance Brasileiro)
9º “Bivar na corte do Bloomsbury” – Antônio Bivar (Memórias brasileiras)
10º “Cock and Bull: histórias para boi dormir” – Will Self (Romance inglês)